Se eu pudesse descrever em palavras o amor que sinto pela vida, eu diria, mas o que sinto está além das palavras, além das imagens, além muito além. Dentro de mim há um universo infinito, que se revela quando estou em movimento, por isso danço por isso eu atuo !
Eu sou aquela mulher que fez a escalada da montanha da vida, removendo pedras e plantando flores.

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segunda-feira, 6 de junho de 2011

AFINAL, QUEM É CIGANO?


“Estar diante do cigano era estar diante da diferença extrema, fragmentadora. Agindo como elemento de decomposição da suposta unidade que constituía a sociedade mineira, os ciganos catalisavam conflitos e davam vazão a incertezas. Disso resultou, muitas vezes, uma coisificação dos ciganos, e consequentemente as mais variadas formas de violência contra eles”.
(TEIXEIRA, 2007, p. 137)
Para compreender todos os contextos que envolvem a quirologia, optou-se uma abordagem da etnia cigana frente sua popular associação com a leitura de mãos. Entender qual é a imagem dos ciganos levantada por estudiosos como Fraser (2007), Moonen (2008), Liégeois (2005) e Teixeira (2007) levanta subsídios teóricos que enriquecem o entendimento do contexto da quirologia.
Contar a história de um povo errante que exclui a tradição escrita é um tanto complicado, ainda mais que os registros sobre eles foram escritos somente quando causavam algum problema. No Brasil, a abordagem literária acerca dos ciganos é rica em comunhão com o ocultismo, porém, escassa em abordagens históricas em nível de história, sociologia e antropologia. Traduções de trabalhos estrangeiros também são poucos, como por exemplo, o trabalho de Nicolle Martinez (1989), cujas considerações estão em nível hipotético.
A presente abordagem fundamenta-se no trabalho de Angus Fraser (2005), que fez uso de quatro referências para a construção da probabilidade da origem étnica cigana:
• pela evidência lingüística (grande semelhança entre o Romani, língua cigana e o Sânscrito, idioma de origem indiana falado em territórios iranianos antes de 300 a.C. como resultado do avanço de Alexandre Magno no noroeste da Índia em 327-326 a.C.);

 • por paralelos étnicos;

• através de estatísticas lexicais;

• por meio de estudos da antropologia física.

Segundo o autor, esse povo errante chegou às paragens Bálcãs no período medieval e foi se espalhando pelo mundo de maneira gradual. Chegaram disfarçados de peregrinos e despertaram uma intensa curiosidade, consequentemente, segundo Fraser (2005) teorias sobre suas origens se ploriferaram. Somente mais tarde foi possível deduzir por meio de sua língua de onde partiu sua diáspora. Durante os séculos, apesar da constante exposição a múltiplas influências e pressões, conseguiram conservar uma identidade diferente e demonstrar um notável poder de adaptação e sobrevivência. A sobrevivência, segundo o autor, é a principal conquista dos ciganos.




É um povo com idioma, cultura e um tipo racial comum, mas, segundo o autor, foi-se o tempo que podiam ser facilmente distinguidos, pois na atualidade, encontram-se consideravelmente diversificados. Outro fator semelhante a ser considerado é o que ocorreu através dos séculos com o significado atribuído ao término “cigano”. Tal como as variadas teorias de origem, o significado atribuído a nomenclatura apresentou um problema semântico não reivindicado pelos ciganos. O termo costumou ser aplicado indiscriminadamente a qualquer membro itinerante da população que não fosse obviamente um vagabundo. Algumas depreciações acresceram esse sentido amplo, no caso da língua britânica, ter o equivalente “traveller” assim como similares equivalentes em outros idiomas. A descrita equivalência designa cigano a qualquer viajante, fazendo possível a associação com os itinerantes tinkers, ou com os atuais adeptos da ideologia hippie ou New Age, que optam voluntariamente ao estilo de vida nômade. Qualquer descrição satisfatória, nas palavras de Fraser (2005) não está livre de ambigüidades.
Os perigos dessas designações podem ser verificados na evolução do vocábulo “cigano” nas leis britânicas em finais da década de 1950. Fraser justifica o exemplo britânico para generalizar o todo (no sentido das diversas localidades geográficas) já que os problemas de definição se fizeram mais agudos na Inglaterra, devido aos muitos elementos não romanis na ascendência de sua população cigana, acrescida da larga história de outros grupos nômades que existiam muito antes da chegada dos ciganos e que se ocultaram mutuamente em muitos aspectos da vida social no sentido de “ganhar a vida”. Durante período citado, os ciganos foram despojados de toda significação étnico ou racial, primeiro acidentalmente logo de forma deliberada. O desígnio cigano chegou a especificar “grupo de pessoas que cometiam um delito se acampassem ou montassem um posto”. Segundo Fraser (2005) o problema semântico já estava tão complexo que somente os tribunais poderiam resolver. O problema só foi resolvido quando foi aprovada uma Ata de Lugares para Caravanas em 1968 que regularizou a provisão de acampamentos ciganos, porém não garantia um significado que considerasse origens ou traços étnicos, apenas pelo estilo de vida. A regularização do sentido étnico ao significado de cigano ocorreu em 1965 por meio da Ata de Relações Internacionais contra a discriminação aos ciganos recorrente na época.
 Segundo o autor, esses debates ingleses servem para ilustrar debates em tribunais que se dão desde a chegada dos ciganos na Europa, e esses servem para demonstrar um “importante dilema que se nega a desaparecer em qualquer discussão sobre os ciganos: é a forma de vida o fator primordial em sua definição?” Apesar de ainda não haver uma resposta conceitualmente habituada em sociedade, deve-se considerar que os ciganos possuem as características essenciais para distinguir um grupo étnico: primeira, uma larga história compartilhada, do qual o grupo é consciente por se distinguir de outros grupos e cuja memória mantêm viva; a segunda é uma tradição cultural própria, o que inclui costumes e comportamentos familiares e sociais, associados em parte, mas não necessariamente, com práticas religiosas originais e definidas. Outras características que não essenciais seriam: uma origem geográfica comum, uma literatura comum, própria do grupo; uma religião diferente dos grupos vizinhos ou da comunidade geral e ser uma minoria ou ser um grupo oprimido no interior de uma comunidade mais ampla.
Diante dessa visão ocidental regulamentada questiona Fraser (2005): que orientação se pode esperar dos próprios ciganos, considerando que sua própria atribuição um importante mecanismo para delinear a identidade étnica? Não existe em romani qualquer vocábulo correspondente a cigano. Segundo o autor, é inacabável o debate a respeito de quem é verdadeiramente cigano e quem não é. Também é inútil falar em términos geográficos como “os ciganos franceses” e se faz difícil e enganoso generalizar sobre “os ciganos”.

Na contribuição de Moonen (2008), em decorrência da nomenclatura, cigano é um termo genérico inventado na Europa do século XV e que ainda hoje é adotado por falta de outro melhor. Segundo o autor, os próprios ciganos costumam usar autodenominações completamente diferentes.
Diante da grande diversidade enfatizada por Fraser (2005), Moonen (2008) apresenta a distinção de três grupos, reconhecidos tanto pelos ciganos como os pelos ciganólogos:
1. Os ROM, ou Roma , falam a língua romani; divididos em vários subgrupos, com denominações próprias, como os Kalderash (Kalderash = caldeireiros), Matchuaia, Lovara, e os Curara. Predominância nos países balcânicos, mas a partir do Século XIX migraram também para outros países europeus e para as Américas. Os mais estudados e descritos, se auto-denominam “os ciganos autênticos”.
2. Os SINTI, falam a língua sinto e são predominantes na Alemanha, Itália e França, onde também são chamados Manouch;
3. Os CALON ou KALÉ, língua caló, predominantemente ibéricos, já que vivem principalmente em Portugal e na Espanha, onde são mais conhecidos como gitanos, mas que no decorrer dos tempos se espalharam também por outros países da Europa e foram deportados ou migraram inclusive para a América do Sul. Apresentam maior nomadismo, no sentido de não ficarem por muito tempo em um único lugar. Segundo Moonen (2008), aparentemente, nada se sabe sobre eles no Brasil, e pouco na Europa. No Brasil pode-se encontrar ciganos desses três grupos.
E depois dessas divisões e divisões Moonen (2008, p.3) conceitua: Apesar de todas estás dificuldades, definimos aqui cigano como cada indivíduo que se considera membro de um grupo étnico que se auto-identifica como Rom, Sinti ou Calon, ou um de seus inúmeros sub-grupos, e é por ele reconhecido como membro. O tamanho deste grupo não importa; pode ser até um grupo pequeno composto de uma única família extensa; pode também ser um grupo composto por milhares de ciganos. Nem importa se este grupo mantém reais ou supostas tradições ciganas, ou se ainda fala fluentemente uma língua cigana, ou se seus membros têm cara de cigano ou características físicas supostamente ciganas. (Ibidem, 2008, p. 3)
Há hoje uma consciência por parte dos ciganos de fazer parte de uma entidade maior (FRASER, 2005). Prova disso é o aparecimento e desenvolvimento desde os anos 1960 de organizações nacionais ciganas, em defesa própria, para garantir o reconhecimento dos direitos ciganos e para lutar contra as políticas de rejeição e assimilação. Essas organizações têm conduzido laços internacionais que são contrários ao fragmentado cigano, a ênfase é a diferença e a distinção. Consolida-se o principio de uma nova consciência dos laços históricos e culturais que compartilham todos os ciganos.
Sem embargo, Fraser (2005) afirma que depois de séculos, os ciganos tem todo direito de serem considerados um “povo da Europa”, visto que grande parte da população européia tem ascendência neles, estando entre os poucos “pan europeus” do continente.

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